O
índio bate tambor
Para
que chova.
O
filho de santo bate tambor
Para
se enturmar com as entidades.
O
poeta bate tambor
Para não sofrer um avc.
Fortaleza, 2006
I
Acabei de
machucar gravemente uma barata.
Ouvi estalos.
Na derradeira
pisada –
De chinelão –
Compreendi
o banquete
Que havia
proporcionado
Às formiguinhas
pretas.
II
Está chovendo
Ou é o rato
comendo
A sobra do almoço
no lixo?
Visitante
indesejável
Apossou-se da geladeira
E do fogão.
Ainda não tive coragem
De exterminar-lhe
a raça
Com uma ratoeira.
Só espalho
venenos coloridos
Pelos espaços
fronteiriços.
III
Trabalho não me
falta.
Novas espinhas
surgem do nada.
Brotam com seriedade
de ruga.
Espremo a minha
predileta:
Sai sangue,
O pus coagula.
Está virando
sinal.
IV
Amo meu lar.
As paredes
abertas.
As vozes
vizinhas.
O infinito
Entre a cama
E o banheiro.
Uma eternidade
Para cair água
Do chuveiro.
V
Meu umbigo:
Obscuro.
Um elo com a
loucura.
Cheirinho de
excremento
Purificado pela
solidão.
VI
Poemas ressacados
Ainda úmidos
Não vingam.
Nem chego a
vê-los.
Mestre cego
E discípulos
tontos
Acabam caindo
feio do abismo.
VII
Madrugada,
As ovelhas não
dormem.
Há lobos ferozes
Que adoram carne
fresca.
Madrugada,
As minhocas não
dormem.
Há galos insones.
Ciscando.
VIII
Tento andar
descalço
Sobre brasas
adormecidas.
O corpo padece.
Mas a alma do poeta alegra-se.
Se não fosse a bebida
O verme seria um pássaro.
IX
Cacos de cerveja
Empilhados
Servem como ninho
Para ratos
ditosos
E ratazanas
sensuais.
Todas as noites
Uma balada
especial:
Dançam, pulam
Comem pão com
chumbinho.
Não morrem,
Ficam mais
pirados.
X
Escrevo
apaixonado
Pelos pensamentos
alheios.
Quem me ama?
Quem me ama de
verdade
Além do
ventilador quebrado?
XI
Andamos
abobalhados
Levando susto
Do repente da
geladeira.
Minha lucidez é
uma droga pesada.
Afasta da luz a
sombra.
Até as vozes
perdem o eco.
XII
No ato da
escrita,
Pensando,
Ajustando um
Ou outro verso,
A poesia se
dissipa.
Consigo leva
A alma do poeta.
O poeta é de fato
Seu fiel
depositário?
Digo,
Na cerração
Do pensamento,
Longe do
arrebatamento,
A poesia foge
Ou adquire outra
forma?
XIII
Limpando o nariz
Ao sabor da
distração,
Poeta?
Tirando meleca
metafísica
Das profundezas
da cavidade nasal?
Olha que o diabo é
embusteiro.
E a mente eterna.
XIV
Seis horas,
ave-maria.
Miado de gata
prenhe
Na torre da
igreja.
Nessa bendita
hora
Pecados
imaginários
Caem sobre os
ombros
Dos solitários (humanos
Ou cachorros).
O sujeito vai
à varanda
E acende um
cigarro.
O pobre cãozinho
Apenas se
prostra.
Tapa os olhos,
Cruza as
patas.
XV
Mantenho relação
fértil
Com o cordeiro
E a serpente.
Até agora
Alcanço o fruto
Sem subir na
árvore.
A cada salto,
Um verso.
Hematoma na
testa,
Queimadura no
braço.
XVI
Meus ancestrais
são vozes que ouço
Para proveito
próprio.
Quando a
balbúrdia estressa
Ordeno que se
calem.
Do útero apenas uma
lembrança:
Pernadas.
XVII
Menino feio,
pobre, comedor de barro,
Esquizofrênico e
poeta só se apaixona
pelas formiguinhas:
Nas costas,
Cascas de
tangerina
E bostinha de
muriçoca.
XVIII
O esqueleto do
poeta
Perambula
Só.
Trôpego,
Mas não se
fadiga.
A última gota de
lágrima
Pinga no cafezinho
quente.
XIX
Na hora de vestir
minha cueca
Cheiro minha
cueca
Para ter certeza
Se estou vivo.
O cheirinho de
mijo
Inspira-me.
XX
Pequeninas
formigas ensinam-me
Onde encontrar
açúcar.
Sigo as
danadinhas de longe
Para não perder
de vista as mais telepáticas.
Pequeninas
formigas
De tão
persistentes
Levam-me ao
cansaço.
Regresso ao meu
quarto.
Contento-me com o
café amargo.
XXI
Hora de ir para a
concha.
Ouvir o mar.
Hora de dormir na
privada.
Estalar os dedos
dos pés.
Limpar o nariz.
Hora de sentir as
axilas sufocadas.
Hora de tirar uma
garrafa
Do engradado.
Hora de apagar a
luz,
Encostar as
portas.
XXII
Que morte
trágica:
Arrancar o couro
e a casca
De uma barata
voadora.
Meu tênis novo
Solado
antiderrapante
Deslizando apressou-se.
“Urra, que
meleca!”
Bradou meu filho,
Duende festivo
De quatro anos
E onze meses.
XXIII
Coragem fechar os
olhos
Idolatrar o
escuro.
Beber leite de
madrugada.
Compartilhar com
as muriçocas
A pele sangrenta
das raladuras.
XXIV
Minha
escrivaninha foi desarmada,
Desparafusada,
encaixotada, jogada
Debaixo da cama.
Resta-me a
máquina de escrever
Olivetti 45.
Um tanto
empoeirada,
Mas com uma alma
imensa.
XXV
O vazio me
espreita.
Vazio amplo e
confortável.
O vazio das
manhãs de sexta.
XXVI
Genes parasitas
perturbam o silêncio.
Uma luxação no
pulso
Atinge-me a alma.
Ah, essa mente
dúbia.
Ui, esse coração
molenga.
Eu devo ter comido
muita terra
Quando criança: vivo carregado
de
indolência.
XXVII
De madrugada duas baratas
Em sentidos
opostos copulam taciturnas.
As duas baratas fazem
amor
E estão sérias.
Cada uma para o
seu lado.
Sem olhar para
trás.
Silenciosas.
XXVIII
Não exponho
minhas chagas aos tolos.
Contenho-me,
Não voo.
Pensariam
tratar-se de enfermidade.
Seria o fim das
minhas reluzentes asas
De protozoário.
XXIX
Cheguei ao ápice
da tolice:
Pulmões limpos,
Passos sóbrios.
Todo o futuro
embalsamado.
Complexidade
somente
No abscesso do
meu dente.
XXX
Óbvio
Que sóbrio
Sou apático.
Embriagado,
Trovador
lunático.
Quanto ao dia
seguinte:
Aço, osso, cinzas
cintilando.
Suaves
queimaduras do amanhecer.
XXXI
São tuas as
artérias
Que engrossam e
afinam
O sangue do meu
peito.
Se estás
distante,
Enfraqueço.
A insônia
(mãe cúmplice)
Aproveita: sufoca-me
contra
o meu travesseiro.
XXXII
Veio o inverno
com seu frio estomacal.
Chuva combina com
loucura.
As velhas paredes
têm veias:
Teias de aranha.
O velho teto tem
alma:
Nódoas de
goteira.
XXXIII
O café está
pronto.
Mas, por favor,
Sem perninha de
barata.
Minúscula e tenra
Perninha de
barata no açúcar.
XXXIV
Lustro meus
despojos.
Não haverá outra
casa materna.
Nem outro corpo.
Direi adeus em
silêncio
Coçando meus
testículos murchos.
XXXV
Alto risco
brincar de ciranda
Debaixo do meu
chinelão.
Inseto destemido,
Não tens medo da
morte?
Vai, corre,
refugia-te
Pelos cantos
encardidos
Da cozinha.
É o teu dia de
sorte:
Benevolente deixarei que
escapes.
XXXVI
Que soberba
altivez
A do macarrão
No pacote.
Que humilde
languidez
Há dois minutos
na água quente.
XXXVII
Não tenho
dinheiro
Sequer para
comprar uma escova.
Imaginai,
caríssimos,
A situação
precária dos meus dentes.
Perambulo altivo,
cético,
Com os dentes
rijos e podres.
XXXVIII
O poeta menstrua.
Sobretudo no seu
aniversário.
Planeja
suicídios:
Acende a luz para
morrer feliz.
XXXIX
As minhas ovelhas
todas
Estão cientes da
relva podre
E do céu cinzento.
A qualquer hora
tempestade.
A qualquer
instante micose no focinho.
Mas são livres.
Pastores só os grilos
e os vaga-lumes.
XL
Não deixa de ser
patético
Esconder os
versos
Sempre que ouço
passos
E a porta é
aberta.
Ninguém é digno
De flagrar meu
encantamento.
Nem a mãe nem a
esposa nem o filho.
XLI
Por mais que
eu medite,
O animal se
exibe.
Preciso das
migalhas medito:
Crio calo na coluna
vertebral.
XLII
Esperançoso,
Colo o ouvido
Na parede:
Tento ouvir
gemidos
Da nova vizinha.
Torneira aberta,
Só torneira
aberta.
Nada que me
alegre
O coração
solitário.
XLIII
Não posso
deixá-la sozinha,
Morrer sem o
calor dos meus dedos.
Lute, minha
lapiseira,
Pense nas
batalhas de Heráclito de Éfeso.
Não morra, não
seja mais uma esquecida,
Deixada de lado,
fria, dentro de uma bolsinha de couro.
XLIV
Só tenho cabeça
Para poesia.
Dormindo.
Atento.
Letárgico.
Maçã bichada não
mata:
Tira-se a
lagarta,
Experimenta-se
o
vazio.
XLV
Meu coração treme
mais
Que dedo mindinho
de alcoólatra.
Será sinal de
falência múltipla dos órgãos?
É brincado com as
paredes
Que me vem
coragem para voar.
Minha mente
recicla os pensamentos –
Inclusive os de
papel higiênico.
De tão
complacente,
Chego a sonhar:
Sou santo.
XLVI
Depois de adulto,
Minha única
alegria na vida
É coçar as
mordidas de muriçoca.
Na infância era comer barro.
ah, as paredes frias
de inverno.
XLVII
Oba,
Surgiu uma
formiga.
Já alcançou o
guarda-roupa.
Céus,
sumiu rápido:
Alma penada
De monge
tibetano.
XLVIII
Barrigudo,
abstêmio, desempregado, humilhado,
Maltrapilho,
cabelo branco, dente furado, quase cego.
Mas poetizado.
Basta a lapiseira não secar.
Papel a gente
arranja na lixeira do banheiro.
XLIX
O que acontece
com os sabonetes de hoje?
Não importa a
marca.
Se fragrância
tradicional
Ou exótica.
Não dura uma
semana.
Desmancha-se.
Evapora.
Não consigo
concluir um verso.
Outrora decorava
Camões debaixo do chuveiro.
L
Meu primeiro gole
de café,
Minha primeira
descoberta existencial.
A vida se resume
a um cafezinho quente:
Combina com
tédio, solidão, comprimidos.
LI
De tantas idas ao
banheiro
Faço amizade com
a descarga.
Ela balbucia,
Eu reflito
Sobre as figuras
abstratas
Dos azulejos
rachados.
LII
Durma,
Meu filho.
Pode dormir a
tarde inteira.
Durma.
Chore e sorria
babando.
Nenhuma alma
penada o acordará.
Seus anjinhos e
seus duendes
Esperam-no
humildemente.
Durma.
E só abra os
olhinhos
Para assistir ao
seu desenho preferido:
Scooby.
LIII
Tanto faz sozinho
No quarto empoeirado
Rastro de barata
Ou rastro de
formiga.
Elas apenas
querem caminhar
Com as minhas
pernas.
As minhas pernas,
Empresto-lhas.
E não é sonho,
É milagre.
LIV
Pela letra
Tímida ou rígida
Sei se o verso
vinga
Ou murcha.
Pelo tempo azul
Ou nublado
Sei quando
apunhalado.
Em todo caso,
Surpreendo-me
escrevendo:
De ressaca.
LV
Feito traça
Remoendo matéria
empoeirada
Esvazio meu ser.
Nenhum morto.
Mas restam cinzas
Na folha de papel
almaço.
LVI
Esquecer um
poema,
Um poema lapidado
e ungido
É a morte lenta.
Prolongar a
busca,
Sem horizonte:
Suicídio.
LVII
Em noites
frívolas
As muriçocas já
bem idosas
Nem sentem mais o
cheiro
Do meu sangue.
Tenho de ser
delicado
Com as enfermas
de Alzheimer.
Elas conhecem o
caminho de volta
Seguindo a insônia.
LVIII
Somente tiro meu
bermudão
Para dormir.
Somente lavo meu
bermudão
Quando tenho
micose na virilha.
Minha grandiosa
alma,
Ó meu bermudão
surrado.
LIX
Aos quarenta anos
Não dobro mais a
perna.
Nem consigo me
acocorar
Por míseros cinco
minutos.
A alma podre:
Veias, músculos,
rótula.
LX
Acho que não bebo
Amanhã.
Acho mesmo que
não bebo
Depois de amanhã.
Meus fantasmas
lambem os beiços.
Viro um patético
medonho.
Peço esmolas.
Sou empurrado em
valas.
Vi uma garrafa de
vinho vazia.
A boquinha aberta
suspirando:
“Ui, ui,
menino...”
LXI
Se vou ter um AVC
Que seja
escrevendo:
Distraído,
compulsivo, delirando.
LXII
Esse fantasminha
adora meus versos.
Escrevo. Depois
cago.
Depois cago.
Amanhã o
fantasminha pode cantar em outra freguesia.
E como fico?
Cagado, limpo,
mas sem poesia?
LXIII
Pode latir,
cãozinho.
Ninguém entende
sua metafísica primária.
Pensam que é
fome. Ou sede. Ou estresse.
O dono tão
próximo e tão medíocre.
Pode latir,
cãozinho.
Conheço sua ira
melancólica.
LXIV
Os escorpiões
adoram petiscos
De patas de
barata
Crocantes.
Desde a
antiguidade –
Debaixo de tumbas
E entre fendas –
Os escorpiões
procuram por baratas.
De todas as
espécies:
Voadoras,
tímidas, cascudas.
O negócio dos
escorpiões são as patas crocantes.
Estalando. Dando
água na boca.
LXV
O sonhador sabe:
As nuvens
Nada seriam,
Se o vento
Fosse uma bruxa
E odiasse
crianças.
LXVI
Viver é um barato
de ácido
Misturado a
picolé de morango.
Quem é poeta –
Mesmo duro,
manco, feio –
Estabelece pactos
noturnos
Com as formigas,
baratas e muriçocas.
E o que dizer dos
trouxas sortudos
De bunda fofa e
larga voltada para a lua?
LXVII
Amoxicilina é
fogo,
Meu filho delira:
Vê baratas
voadoras,
Vê lagartixas.
Para tratar da
sua garganta inflamada,
De oito em oito
horas
5ml de
amoxicilina.
LXVIII
Não tenho pressa,
Minha sombra
Já passou por
mim.
Deu descarga,
Antes que eu
abaixasse
A tampa.
LXIX
A minha parte eu
faço:
Vegeto atrás do
pássaro.
Não o alcanço
nunca.
Mas vegeto com
volúpia.
Se o pássaro vai
virar nuvem,
Outro assunto
para a eternidade.
A minha parte eu
faço:
Transformo minha
existência.
LXX
Poeta é um fulano
Amigado com o
tempo.
Conhece os
segredos do agora.
Resta ao fulano
Fugir do
transitório
Abençoando o
instante:
Plantas, paredes,
objetos.
LXXI
Contarei um
segredo:
Quando se escreve
um poema
Com as costelas
inteiras
A gente fica
procurando
O coração.
Contarei outro
segredo:
E quando a gente
acha o músculo
As costelas –
feito areia –
Somem pelos dedos
da mão.
LXXII
Meu Pai,
Que abominável
fantasia:
Estou viciado em
morrer.
Meditar com a luz
acesa.
Criar laços com o
esqueleto sedentário.
LXXIII
Ninguém é ateu
eternamente
Que não creia em
terra úmida:
Brotinho de
feijão crescendo,
Minhoca na alcova
sorridente.
LXXIV
Super-homem caiu
de cara
Dentro da lixeira
podre do banheiro.
Meu filho não viu
Seu super-homem
de brinquedo
Encoberto por
papéis higiênicos
E absorventes
sanguinolentos.
A poesia é
engraçada
No patético
simplório resvala
Despertando
pensamentos.
LXXV
Para compor um
verso
Amputo o poema.
Para tocar a lua
Vou lhe arrancando
as faces.
Não movo um dedo.
Não afasto uma
estrela.
LXXVI
Vem, amor
Bater tambor.
Minha morte já
foi anunciada.
Mas não é para
agora.
Divago sobre
coisas fúteis
Bem aos olhos do
gigante.
Quanto vale o
silêncio dos objetos.
Quanto custa o
elo com seres inanimados.
Todo gigante é
cego.
Vem, amor
Bater tambor.
Desligo o
computador,
Fecho a porta da
geladeira.
LXXVII
Francamente,
Há noites
Em que ler poemas
É uma lástima.
Escrever,
Um inferno.
Mergulho atrás da
pedrinha colorida.
Regresso à
superfície.
Nada encontrei:
Pedrinha
colorida, tampa de refrigerante,
Casca de laranja,
palito de picolé.
Lá embaixo,
Os olhos ardem
E falta ar.
LXXVIII
Nos meus dentes
abertos
Florescem
abscessos.
Dentes podres,
Luas pus.
LXXIX
Lucidez causa
cãibras.
A mente esquenta,
esfria, morna.
Cefaléia amorosa.
LXXX
Doem meus rins,
Dói meu fígado,
Doem minhas
costelas.
Volto a existir
ressacado,
Tantas portas
abertas:
Pouco vento
Que me leve
Até elas.
LXXXI
Meu filho
De quase cinco
anos
Morre teimando
Que em lixeira de
banheiro
Pode jogar casca
de banana.
Defende sua tese
com maestria.
Espero que não
jogue papel cagado
Na lixeira da
cozinha.
LXXXII
Traças e aranhas
flertam.
Não se aproximam.
As aranhas sempre
famintas.
Louças na pia
De vários gêneros
e feitios.
Rapidinho o lunático
as lambe
Fazendo
balõezinhos de detergente.
LXXXIII
Tolice ver um
vulto
É chamar vovó.
Ouvir uma voz
E se ajoelhar.
Existe uma
luzinha
Lá no fim do
túnel.
É a mesma pela
qual
Certos besouros
são atraídos.
Entregam-se
afoitos,
Morrem atônitos.
LXXXIV
Agüei as plantas,
Agora farei a
barba.
Ou mais saudável
Ir logo à
privada?
Bananada ajuda
A descerem esculturas.
Hão de boiar
lúcidas e serenas.
LXXXV
Como não sei onde
encontrar a verdade,
Vivo investigando
as paredes.
Nem todas
silenciosas.
Há aquelas
sinistras
Que blasfemam
contra as teias de aranha.
Reclamam da
umidade.
Odeiam poeira.
Não se apiedam
das miseráveis traças.
Recolhem-se de
tal forma
Que racham o
teto.
Sequer vêem a
cômoda,
Cama, geladeira,
sofá.
Em manhãs de
terça-feira
Essas paredes
anacoretas
Permitem ao poeta
Um frio abraço.
Depois se fecham
Entre multidões
de objetos.
LXXXVI
O absoluto e
famigerado cérebro
Também se ilude.
Ludicamente
ludibriado
Pelos olhos em
movimento.
A ponte entre a
razão e a loucura
É uma bolinha
verde imaginária.
LXXXVII
Aquele poema
escrito
No computador
engavetado
Debate-se
enfadonho
Com dor de cabeça
Deprimido.
Em torno dele,
Palavras tortas,
Um ritmo
decadente.
A poesia viaja,
O poeta não
dorme.
LXXXVIII
Lembra-se
daqueles versos suspensos
Esperando ir ao
banheiro?
Pois bem, tão
todos mal.
O dono deles não
obra mais milagres.
LXXXIX
Meu futuro são
névoas.
Meu passado,
ruínas.
Meu presente
agora
Eternidade
efêmera.
Nenhum comentário:
Postar um comentário